À primeira vista, a ideia de os Estados Unidos ameaçarem ocupar a Gronelândia parece exagerada. Para muitos, soa a provocação política ou a retórica eleitoral. Mas a experiência recente aconselha prudência: quando Donald Trump ameaça, raramente está a fazer bluff.
A história do seu percurso político mostra um padrão claro. Tarifas comerciais, ruturas diplomáticas, pressão sobre aliados, decisões unilaterais — em múltiplas ocasiões, avisos que pareciam impossíveis acabaram por se concretizar. Ignorar esse padrão seria um erro estratégico.
A National Security Strategy 2025 deixa pouco espaço para dúvidas. Os Estados Unidos assumem uma política externa baseada no interesse nacional e no lema “America First”, na geografia estratégica e no controlo de ativos críticos. Não se trata de um desvio momentâneo, mas de uma opção estrutural. É uma visão de poder crua, pragmática e assumidamente hierárquica.
É neste quadro que a Gronelândia surge como alvo de interesse. Rica em recursos minerais estratégicos, posicionada no centro do novo tabuleiro do Ártico, torna-se um ativo demasiado valioso para ser deixado fora da lógica de segurança americana. A ameaça, por isso, não é absurda. É funcional.
Aqui importa dizer algo com clareza: o que está em causa não é um regresso ao colonialismo clássico, com bandeiras e anexações formais. O que emerge é uma forma moderna de colonialismo instrumental, baseada na pressão económica, na ameaça política e no controlo de recursos e infraestruturas estratégicas. Não exige ocupação permanente nem administração direta. Basta condicionar decisões soberanas e capturar ativos essenciais. Foi assim na Venezuela. Pode ser assim na Gronelândia.
É precisamente por isso que a Europa não pode responder com perplexidade diplomática ou comunicados cautelosos. Ser passiva neste cenário é aceitar que a força — ou a ameaça dela — se tornou um instrumento legítimo entre aliados. O problema vai muito além da Gronelândia. Trata-se de um precedente.
O economista e diplomata Jeffrey Sachs tem insistido num ponto incómodo, mas central: a Europa não dispõe de uma verdadeira política externa. Não tem uma escola sólida de diplomatas de carreira com autonomia estratégica, nem uma visão internacional própria que não seja reflexo da política de Washington. Sem isso, reage — não age.
A NATO, por si só, não resolve este dilema. O artigo 5.º não é automático e depende de consenso. Esse consenso torna-se frágil quando o potencial agressor é também o garante histórico da segurança europeia. Este é o paradoxo que a Europa sempre evitou enfrentar.
Vale, por isso, uma pergunta histórica inevitável: se Winston Churchill estivesse vivo, teria Donald Trump a mesma reação internacional?
Churchill compreendia que a dissuasão não nasce da ambiguidade, mas da clareza. Não da retórica moral, mas da convicção de que certos limites não são negociáveis sem custo.
Hoje, a Europa hesita. Divide-se. Calcula excessivamente o risco de desagradar. E, ao fazê-lo, transmite exatamente o sinal que incentiva a pressão externa: o de que, no momento decisivo, virará primeiro.
A Gronelândia é, por isso, mais do que um território gelado no Atlântico Norte. É um teste. Um teste à maturidade geopolítica europeia. Um teste à sua capacidade de falar a uma só voz. Um teste à sua disposição para deixar de ser apenas um espaço económico próspero e assumir-se como ator político soberano.